segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

olhei pra fora no alpendre e vi
a minha vó olhando pro nada,
na sua velha cadeira sentada!
sua sobrinha ligou bem nessa hora,
dizendo pra ela esperar lá fora,
que a irmã dela, num minuto afoito,
iria passar pra lhe levar biscoito!
passei o recado e a expressão logo mudou,
ela na hora se levantou e,
caminhando, disse em direção ao portão:
"não é ruim, não"!

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

gota de chuva
é pedaço de nuvem
pra beber

sábado, 14 de agosto de 2010

terra firme

busco o novo mundo no céu
e ele com meus sonhos se funde...
essa dança de nuvens é lenta
tão efêmero mapa-mundi...

sábado, 7 de agosto de 2010

ciúme doentio

bem agora, à meia-noite,
ela deixou em mim uma dormência,
como uma meia-morte, e, cansada,
foi cair nos braços de outro.
esse abraço não é meu!
ela me disse o nome dele,
mas não quero me lembrar...

sábado, 31 de julho de 2010

happy hour

na minha cerimônia de crisma,
deu em cisma com o chato do bispo
que não para de falar e falar...
e o fim, que parece nunca chegar,
de surpresa, muito feliz me faz:
"ide em paz, e que o senhor vos acompanhe"!
e de champanhe em mãos, uma ênfase profunda
inunda a catedral, a uma só voz,
no atroz brado dos amigos meus:
"graças a deus!!!"

(pra Carol)

sábado, 24 de julho de 2010

verde que te quero semente
germinando lentamente
a romper o asfalto quente
contra a espuma azul
do alto

agora verde, já verde
se eu procedo mal
ou se me volto pra trás
converto-me em estátua de sal
e de mim nada brota mais

não temas!

verde que te quero maduro
puro, a duras penas
vou tratar de buscar verde novo
longe da sombra de meu próprio ovo

quarta-feira, 21 de julho de 2010

condição

a morte está pra vida
como o corte pra ferida

não que a vida seja dor
pois é o mero condutor

do acaso que comanda
o girar de uma ciranda

é que um corte repentino
marca a sorte do destino

sábado, 17 de julho de 2010

mas é claro que eu rio...
é por onde minha dor escoa
já que rio é água corrente
e choro só enche a lagoa
onde os patos vão sempre nadar

quinta-feira, 15 de julho de 2010

torno a crer na inocência de outrora
o crepúsculo é irmão gêmeo da aurora

segunda-feira, 12 de julho de 2010

vivemos em uma sociedade...
Godot é a carteirinha de sócio

sábado, 10 de julho de 2010

carta miragem

um dia me reclamou do vazio
que não encontro por perto
pois se é de fato deserto,
é quando o sol queima
e o suor escorre
e o vento seca
e a miragem engana
e o silêncio impera
e a areia cega
e bem longe da praia
você vai e se entrega

domingo, 4 de julho de 2010

educado

eita, garoto acanhado!
garoto sempre calado
e quando muito perguntado:
"alguma dúvida?"
responde sempre:
"tenho muitas, obrigado"

terça-feira, 29 de junho de 2010

coração dos outros
é terra que pisa quem quer

coração com cerca
de arame farpado
pode ser tocado por quem quiser

a tristeza do coração
não está no coração
não é de solidão
não é por ser pisado

quem bem quer ver coração
deve arcar com a invasão
de uma terra produtiva

a tristeza do homem
é a condição de todo gado:
é poder passar a cerca
e estar do lado errado

segunda-feira, 28 de junho de 2010

a argentina
é o corinthians do mundo:
em coração de torcedor
jamais fica em segundo

(isso não é elogio rsrs) :o)

sábado, 26 de junho de 2010

pretérito perfeito

minha primeira professora de piano
me ensinou as notas através de cores.
até hoje, pra mim, cada nota é de uma cor!
dó foi a vermelha porque, na partitura,
é cortada ao meio...
dela eu já tive muito dó

(pra Fátima e pra Carol) :o)
se um dia,
meu deus do céu,
eu largá a mardita
prometo que todo dia
acendo duas vela
e preparo duas tigela:
uma pro santo
e uma pra goela

(kkkk, a Jujuba acabou de fazer esse aqui)

aquela

"não disponho de todo o amor que quero
mas preciso de todo o amor que tenho"

assim me revelou por tabela
aquela que levaria
um dia a própria vida
vertida no jovem sofredor
de sua fantasia,
e usando da própria dor
como anestesia

mas a trágica e nostálgica calmaria do vento
ao fim, obrigada a assumir seu único papel
revelaria sua indiferença a seu olhar atento
e perdido,
agora ido.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

(momento prosa)

São 4:30 da manhã. Vou contar o que aconteceu na noite do dia 11 pro dia 12. Costumo contar vivências pessoais - e este texto não será diferente -, mas não quero que tomem como desabafos, mas como paralelos (não perguntem, é isso e pronto rsrs). Este aqui considero até mesmo um "conto de poder", que é - de acordo com Carlos Castaneda - como se chamam as histórias que os guerreiros toltecas contavam aos seus aprendizes para os levar ao poder, à liberdade. E antes de qualquer comentário, essas histórias aconteciam também com não-guerreiros :o)

Tinha uma rolinha que resolveu chocar seus dois ovinhos no vaso do alpendre da minha casa. Minha mãe não achou ruim e resolveu deixar a rolinha lá, pelo tempo que fosse necessário pros passarinhos se "emanciparem".
Como o vaso ficava suspenso, pendurado pelo teto, ela poderia ficar mais segura dos gatos que costumavam perambular e cagar pelo alpendre às noites. E por alguns dias ela ficou lá sem problema nenhum.
Na noite mencionada, eu saí pro alpendre pra preparar o carro. Tinha me esquecido completamente da rolinha, e, enquanto voltava pra dentro pra pegar algo que eu tinha esquecido, sem querer esbarrei na planta do vaso e ela se assustou. Começou a voar num ponto do alpendre, querendo sair mas não sabendo como. Eu entrei em casa pra ver se ela se acalmava, até que ela parou de fazer barulho. Voltei pra fora, conferi no vaso e no carro, mas nada. Fui achar ela acuada no chão, no outro canto do alpendre, e abri o portão pra tirar o carro. Ela não saiu de lá.
Quando dei partida no carro, fiquei preocupado de passar por cima dela e saí do carro, com ele ligado, pra ver se ela ainda estava no mesmo canto, mas não, ela estava um pouco mais perto do portão, camuflada pela cor do chão.
Foi nesse momento que apareceu um gato branco a uns três metros dela, olhou-a, parou por um breve segundo e, num piscar de olhos, correu até ela, abocanhou-a, e saiu correndo. Isso a menos de um metro de onde eu estava.
Tentei assustar o gato, a rolinha ainda conseguiu se desprender dele por umas duas vezes, mas sem chances; ele sempre conseguia pegar ela no ar. E assim sumiu de vista.

Minha mãe e minha vó ficaram consternadas com o gato, chamaram de filho da puta, disseram que iam colocar veneno pra ele e etc, mas ficou por isso mesmo.

A questão que me coloquei é que as tais "boas intenções" não tem poder algum diante do acaso, totalmente impessoal. Nessa história, as "boas intenções", ao final das contas, acabaram se tornando a raiva e o assombro de uma pessoa diante dessa impessoalidade, o desejo de culpar o ato instintivo de um animal e cometer a mesma "atrocidade" que julgou estar nele, como se isso fosse para autenticar um protocolo; uma maneira de negar sua falta de controle diante desse tal destino.
Estou eu preocupado com o inimigo errado? Isso não é importante, mas também não é desprezível. Sem saber, posso estar caminhando com minhas próprias pernas em direção àquilo que realmente quero evitar, e é isso que o acaso impessoal pode estar preparando pra mim, e que nenhum cuidado ou caridade poderão evitar. O gato branco está a espreita de todos, sem excessão, e é pra ele que iremos um dia. É necessária a sobriedade de não procurar culpados, pois há um destino aí pra aceitar, sem qualquer sombra de acomodação ou inação... como uma condição, não uma maldição.

sábado, 12 de junho de 2010

seta

nem mesmo meta
se desloca
em linha reta

quinta-feira, 10 de junho de 2010

amplexo

plexo solar queimando!
é o instante -
não é infarto -
em que o sol
cobre a sombra
da qual estou farto